Sentidos - A inclusão social da pessoa com deficiência
2 de setembro de 2010
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Inserida em: 27/1/2006
Reportagem: Claudete Oliveira
Marcos Vieira Passos
Ex-instrutor de treinamento de segurança no trabalho deixou a profissão para se dedicar às pessoas cegas, em Macaé
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O macaense Marcos Vieira Passos, de 58 anos, faz questão de dedicar todo o seu tempo em prol de pessoas cegas que necessitam de apoio para se desenvolver cultural e profissionalmente. Cego há 16 anos por causa de um acidente automobilístico, Passos deixou de lado a profissão de instrutor de treinamento de segurança no trabalho, que exercia na Centrais Elétricas Fluminense (RJ), para fundar a Associação Macaense de Apoio aos Cegos, a AMAC.

Após o convívio com outras pessoas cegas, Marcos percebeu a dificuldade que elas encontram para serem incluídas na sociedade. Por isso resolveu fazer algo para mudar a situação dos cegos de Macaé (RJ) - cidade onde nasceu e mora atualmente. "Conheci pessoas que não tinham nem mesmo o apoio da família para levar uma vida digna", conta.

Casado e pai de dois filhos, Marcos sabe bem a importância da atenção que uma pessoa com deficiência precisa para que ela possa ser independente e levar uma vida normal. De personalidade forte, de caráter definido e acima de tudo um sonhador, ele sempre procura atender aos desejos dos outros com boa vontade e dedicação. Com senso de justiça e uma sensibilidade aguçada, ele mergulha de cabeça em tudo que faz. Apesar de sonhador, ele é bastante prático e se adapta a qualquer situação. Desprovido de sentimentos levianos, ele é uma pessoa leal e leva um compromisso até o final.

Leia a entrevista que Marcos Passos concedeu ao site Sentidos e saiba o que ele pensa sobre a inclusão social da pessoa com deficiência e da sua luta pela cidadania das pessoas cegas, à frente da AMAC - há 16 anos.

O que mudou em sua vida após o acidente?
Antes de sofrer o acidente eu nunca havia tido contato com uma pessoa cega. Nem imaginava o quanto é difícil para um cego, principalmente para aquele que não tem apoio, estar incluído na sociedade. Eu sempre pude contar com o carinho de todos os meus amigos e familiares. Por isso, apesar de ser cego eu levo uma vida tranqüila, sou muito independente. A única coisa que eu realmente não faço nessa vida é dirigir um carro.

O que te levou a fundar a AMAC?
Depois que fiquei cego passei a conviver com outras pessoas nas mesmas condições e percebi que elas precisavam de apoio para se desenvolver profissionalmente e culturalmente. Então, com o objetivo de criar um espaço condizente com as necessidades do cego - que tem condições de se capacitar e de ser inserido no mercado de trabalho, enfim ser incluído na sociedade - nasce no dia25 de fevereiro de 1991 a Associação Macaense de Apoio aos Cegos (AMAC).

O que ela oferece às pessoas com deficiência visual?
Hoje, temos 723 deficientes visuais e cerca de 100 pessoas cegas cadastradas na associação. Com o apoio de muitos colaboradores de órgãos públicos, do comércio, e da sociedade organizada, a AMAC oferece atividades da vida diária (ADV), mobilidade e locomoção, e aula de informática através do Dos-Vox. Dispõe de um espaço - o Centro Educacional "Prof. Walter Boschiglia", onde são ministradas aulas do pré-escolar, ensino fundamental e técnica de leitura e escrita Braille. No Núcleo de Produção Braille acontece a transcrição para o sistema Braille de livros didático-pedagógicos que são aplicados no "ensino regular" da municipalidade. A associação também pretende oferecer cursos profissionalizantes e encaminhamento de profissionais aptos para o mercado de trabalho, através da criação de um Centro de Reabilitação, Profissionalização e Conveniência (CRPC).

Como você analisa a inclusão social das pessoas com deficiência atualmente?
Esse assunto não é novo, mas somente de alguns anos para cá, é que o poder público e principalmente os responsáveis pela educação estão, aos poucos, dando atenção para a causa.

E a inclusão escolar de crianças com deficiência, já é possível?
Eu não sou contra a educação inclusiva. Mas acho que tanto a escola como os professores, ainda precisam se preparar. Vejo que isso já está acontecendo A educação especial é uma realidade concreta e a inclusão é uma realidade possível. Não podemos esperar, temos que fazer acontecer.

Deputado Glauco Lopes,
o escultor Joás e o presidente
da AMAC Marcos Passos
O que falta ser feito para que a inclusão ocorra de fato?
O início de tudo é a conscientização de todos. Eu precisei ficar cego e conviver com outras pessoas na mesma condição para fundar uma associação. Acho que não é preciso estar na condição de deficiente para fazer algo por ele.

E a inclusão do cego no mercado de trabalho?
Ainda há poucas oportunidades. É comum ver o cego trabalhando como massagista ou em câmara escura. O cego tem que se qualificar. Para isso, ele precisa primeiramente ter acesso à educação, que é a base de tudo. Depois ele deve acreditar no seu potencial e se sentir útil.

Como é a acessibilidade nos lugares públicos e privados de Macaé?
Aqui, já é possível encontrar banheiros públicos adaptados e rampas de acesso. Já começaram a fazer algo, mas ainda está longe de ser o ideal. Eu sempre digo que o mundo é dos videntes, mas com um pouco de paciência e muito trabalho chegaremos lá.

Quais são os seus planos para o futuro?
Tenho várias idéias e projetos em andamento. O maior objetivo é a construção de uma nova sede da AMAC, numa área de oito mil metros quadrados, doada pela Prefeitura de Macaé. Assim poderemos dar continuidade ao trabalho da Associação, fazendo com que o deficiente visual possa ter acesso à cultura, num menor espaço de tempo e se qualificar profissionalmente para que seja inserido no mercado de trabalho como qualquer cidadão capaz de fazer valer os seus direitos. Um outro grande ideal é a construção de uma fábrica de álcool gel e de produtos de limpeza. Acredito que por meio dela, a AMAC seria talvez, a primeira entidade a ter a sua própria sustentação. A intenção é que essa fábrica também gere emprego aos deficientes visuais e para outras pessoas com deficiência.

Você gostaria de deixar alguma mensagem?
Gostaria de citar um trecho do poeta mineiro, Geraldo Eustáquio de Souza, que admiro muito e que me incentiva em tudo que eu faço. Ele diz o seguinte: "Se você acredita que pode, poderás. Porque vontade gera energia e a disposição de fazer é o início da obra já concluída."

Acesse o site da AMAC www.amacrj.org.br e saiba mais sobre a associação.

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